8.8.10

day 6 - a stranger.

garoto da esquina,

veja só, ainda lembro de você. lembro de quando foi. eu estava voltando pra casa depois de passar o dia inteiro na faculdade - porque tava participando da semana de fotojornalismo - e te encontrei. saí da estação já à noite, e não sabia qual caminho escolher pra chegar em casa. escolhi o que menos usava, o de uma ladeira. tive medo de estar tudo escuro, mas isso não aconteceu. e, graças à escolha desse dia, eu percebi que esse é o melhor caminho pra se voltar pra casa, sempre tem gente andando por lá e seguranças por causa das duas faculdades que ficam aqui. estava cansada e já odiando passar pelos bares na esquina da minha rua, cheios de estudantes bobos. andava quase correndo, louca pra chegar, mal olhando pro chão, como eu sempre ando. levantei a cabeça um pouco e te vi. lembro que os nossos olhares se cruzaram. lembro que me veio um "oh!" à mente, porque você tinha all star/camisa xadrez/cabelo bagunçadinho, que fiquei sem graça e voltei a olhar pro chão ao mesmo tempo que você - que ainda levou a mão ao pescoço, numa espécie de coçadinha na nuca, hehe. estávamos caminhando em sentidos contrários, você passou por mim. e eu, boba-perdida-com-medo-de-que-você-sentisse-minha-confusão, não olhei pra trás. ainda me pergunto pra onde você foi. se subiu a ladeira por onde eu tinha acabado de passar, se foi no caminho das faculdades, ou se sentou na mesa do bar. aquele mesmo da esquina.

5.8.10

day 5 - dream.

caro morpheus,

minha última visita ao seu reino foi estranha. tão estranha a ponto de, ao ouvirem falar de você, amigos me perguntarem "que remédio você tá tomando?". quero dizer, uma relação entre o coração e a boca? se fosse amar comer, principalmente doces, tudo bem. mas não. você me dizia que eles, de alguma forma, estavam ligados. e, por alguma distração, eu mordia a boca e, consequentemente, o meu coração. eu ficava deformada, virava uma espécie de a mulher elefante. mas só por dentro. por fora, eu era a mesma. e chorava pra me levarem ao médico. mas ninguém via necessidade, já que eu estava como sempre. ninguém percebia o quanto o meu machucado era sério. na verdade, ninguém via machucado algum. mas, dentro de mim, eu via. eu sabia. sim, foi isso que você me disse. mas por quê? prefiro correr ao vento. lembrar momentos com pessoas queridas. voar, flutuar, estar no meio do nada. e, se for pra ser algo tenso, acho que prefiro quando você me fala de cobras que são eleitas presidente. ou de quando auschwitz liga pro meu celular- pelo menos eu acordei mais rápido nesse dia. na verdade, acho que não quero entender o que você me diz. mas a verdade é que, de fato, tenho mordido o meu coração.

esperando grãos de areia mais felizes,

j.

day 2 - crush.

caro L.,

de quedinhas acho que entendo. vez ou outra tenho algumas - que duram, às vezes, poucos segundos; outras vezes, anos. e são sempre platônicas. seja pelo meu andar distraído, pela minha paixão por coisas aleatórias ou pela arte stalker. o escolhido da vez foi você. pra contar a história, já não lembro mais do início, exatamente como aconteceu. basicamente, no meu stalkear, achei você no orkut de um amigo. sei lá como, acabei no seu álbum. você tem umas fotos incríveis com legendas incríveis que me fizeram rir bastante. senti uma certa simpatia na hora. fui pro seu perfil e vi o trecho de uma música linda. fui pras comunidades, vi os livros e as bandas que você gosta e pronto. apaixonei. depois de mais algumas provas que me fizeram acreditar que você era uma pessoa legal, mandei um recado. não sei de onde tirei toda essa ousadia. isso realmente não é meu. sim, eu juro, essa queda não sairia do platônico. poderíamos apenas conversar. talvez esse tenha sido o meu erro. o recado não serviu de nada, mesmo tendo uma resposta até simpática sua, mas que ia de nada a lugar nenhum. então, o mesmo átimo de segundo que me deu coragem de escrever pra você apareceu novamente pra me fazer esquecer. ou melhor, esquecer não. eu lembro das minhas paixonites. eu vou lembrar de você, do que me chamou a atenção. mas acho que cansei. é, eu cansei de esperar. por isso o completamente platônico é legal, você não precisa esperar nada de ninguém. mas eu esperei mais uma resposta sua. que não veio. ainda não estou pronta pra esperar novamente. então eu mando essa carta pra dizer que abandonei você. e pra agradecer pelos dias em que stalkear me ocupou o tempo. me fez rir e me sentir uma criança boba. obrigada, l. mas agora, eu passo pra uma outra. que você seja feliz, que tenha sorte esse ano, que o universo seja bom pra você, que não seja forever blue.


da sua ex-stalker,

j.

3.8.10

day 1 - best friend.

(não que eu tenha um milhão de amigos, mas, mesmo entre um pequeno grupo, amigos são amigos. e, desses amigos, alguns são melhores amigos. eu os sinto e pra todos eles escrevo.)


queridos melhores amigos,

obrigada. não vejo outra forma de começar a dizer algo pra vocês que não seja esse agradecimento. são tantos momentos compartilhados, tantas lágrimas e sorrisos divididos. são vocês que me seguram em todos os momentos e me fazem continuar. blá blá blá clichê, mas nossa, como isso é verdade! eu considero muito a amizade de cada um, eu amo cada um imensamente. tão imensamente que às vezes me assusta.

é reconfortante saber que, mesmo com toda a distância, vocês estão ao meu lado e isso se percebe em coisas simples como um recado, um depoimento secreto, uma conversa por email ou msn, uma ligação de três segundos com um grito. ou quando a gente se encontra e parece que estivemos juntos todo o tempo. e esses quases dois anos de continuação só provam que, sim, podemos continuar sempre. sem contar que as minhas lembranças de socialização começam com vocês. laguinho no colégio, red hot na fila da cantina, acidentes com a porta de um guarda-roupa na viagem, troca de cartas, casa de vó, noites do pijama, viagens de vestibular, pinacoteca, canal, músicas compartilhadas, filmes trocados, planos de músicas/roteiros/textos. é algo que só a física complexa abstrata pode explicar. é entender neuroses e decepções amorosas. é acreditar que um dia iremos escrever algo juntas.

também é reconfortante saber que, finalmente, encontrei vocês. aqui perto. tão perdida, tão chata, tão sozinha. e vocês apareceram pra alegrar meus dias nos corredores lotados, ouvir meus desabafos. conversas em bandejão, starbucks, avenida paulista, cinema, aulas, doces. não dá pra esquecer quando você veio me visitar pra saber se tava tudo bem. nem quando você atravessou são paulo duas vezes pra passar a tarde comendo comigo, pra conversar e fazer com que eu ficasse bem. é fazer planos pro meu aniversário de vinte anos, é querer aprender psicanálise, é não acreditar que o triceratops não existiu.

se vocês ainda não sabem (eu acho impossível, mas vamos lá), eu os amo. e às vezes acho que não retribuo tanto carinho. também não consigo escrever tudo o que eu sinto, não cabe em mim. mas esse carinho existe. quero abraços apertados e demorados. quero todos por perto, sempre.

2.8.10

achei essa semana por aqui o 30 Days Letter Project. parece bem legal e vou tentar participar. provavelmente não vai ser bem escrito, já que eu não uso bem as palavras. e não vai ser fácil ter uma disciplina pra escrever todas as cartas na ordem. nem sei se vou saber escrever todas. mas enfim, tentarei. fica aqui a dica pra quem quiser escrever cartinhas virtuais também.


Day 1 — Your Best Friend
Day 2 — Your Crush
Day 3 — Your parents
Day 4 — Your sibling (or closest relative)
Day 5 — Your dreams
Day 6 — A stranger
Day 7 — Your Ex-boyfriend/girlfriend/love/crush
Day 8 — Your favorite internet friend
Day 9 — Someone you wish you could meet
Day 10 — Someone you don’t talk to as much as you’d like to
Day 11 — A Deceased person you wish you could talk to
Day 12 — The person you hate most/caused you a lot of pain
Day 13 — Someone you wish could forgive you
Day 14 — Someone you’ve drifted away from
Day 15 — The person you miss the most
Day 16 — Someone that’s not in your state/country
Day 17 — Someone from your childhood
Day 18 — The person that you wish you could be
Day 19 — Someone that pesters your mind—good or bad
Day 20 — The one that broke your heart the hardest
Day 21 — Someone you judged by their first impression
Day 22 — Someone you want to give a second chance to
Day 23 — The last person you kissed
Day 24 — The person that gave you your favorite memory
Day 25 — The person you know that is going through the worst of times
Day 26 — The last person you made a pinky promise to
Day 27 — The friendliest person you knew for only one day
Day 28 — Someone that changed your life
Day 29 — The person that you want tell everything to, but too afraid to
Day 30 — Your reflection in the mirror

19.7.10

how the hell did it get here so soon?

é o seguinte: já há algum tempo eu descobri que crescer não era fácil - tá, me diz o que é fácil nessa vida -, mas eu ainda não esperava um momento tão crítico assim. é sufocante se sentir tão dividida entre duas etapas da vida e não saber escolher pra onde ir. quer dizer, acho que sei o que quero escolher; não é a escolha ideal, não é nenhum, ham, avanço. e por não ser a escolha ideal, eu faço a outra, mas eu não tô pronta ainda. e não tem choro que resolva, não tem desabafo que traga uma solução. eu podia parar e esperar. mas parar e esperar também é angustiante e resolvi que eu deveria me forçar a crescer. e o resultado é que continuo dividida: me achando incapacitada pra assumir certas responsabilidades e achando que, sim, eu devo dar esse passo inicial porque tá na hora. mas será que tá na hora mesmo? será que eu devo seguir em frente com esse plano maluco? ainda não sei como essa história acaba.

i don't wanna grow up.

10.6.10

i put a spell on you, brownie.

assim, essa música é genial. e esse cara é fantástico. e eu tô com uma vontade enorme de doces esses dias - doces mesmo, não drogas (é sempre bom explicar nesses tempos modernos e de léxico variado, não é mesmo?). uma vontade bem maior que a vontade tradicional.

então eu dediquei essa música hoje pro meu brownie de chocolate com doce de leite. junto com meu chocolate gelado e caramelo.




não fez sentido? hum, não sei.
me disseram que eu parecia o arthur dent pra explicar as coisas.

5.6.10

um navio no espaço.


Em 1982, conheci Ana Cristina de um modo bizarro. Eu fazia "Caso Verdade", um programa de TV dirigido para donas de casa, empregadas domésticas. Ao mesmo tempo, AC era contratada pela mesma emissora para leitura e análise de textos. É óbvio que não poderia gostar de histórias infelizes com final feliz, e me enviava relatórios semanais criticando com acidez meu "Quase Verdade". E foi em dezembro, quando saiu seu primeiro livro, "A Teus Pés", que eu fiz uma extraordinária descoberta: aquela mosca que pousava na minha sopa era uma poeta inovadora, vigorosa e original.
No ano seguinte viajei e perdi AC de vista. [...] E no dia 29 de outubro de 1983, Ana Cristina César deu fim à própria vida. Era bonita, inteligente e tinha 31 anos.
(Paulo José)


assim surgiu a vontade de levar a história da poeta para os palcos. dialogando com os poemas, o ator paulo josé vai tentando descobrir quem é ana cristina césar, e o que ela queria dizer, o que ela sentia quando escrevia. o resultado é lindo, comovente.


Tarde aprendi

bom mesmo
é dar a alma como lavada.

Não há razão
para conservar

este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.

Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali

de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.

No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais

quem são,
de uma doçura

venenosa
de tão funda.

31.5.10

sobre ser um rio.

"Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou."

(Álvaro de Campos)


tenho defluído. transbordo.

21.5.10

"[...] a gente nunca sabe exatamente que espaço ocupa na vida de outras pessoas. Apesar de tudo, dessa névoa emergiu sua afeição - as melhores ligações são aquelas em que reconhecemos haver obstáculos e, mesmo assim, ainda desejamos manter os vínculos."

(Fitzgerald)

a melhor explicação:

20.5.10

a boneca.

"Desejava talvez fazer a alguém a confidência de todas essas coisas. Mas explicar um inexplicável mal-estar, que muda de aspecto como as nuvens e que se move em turbilhão como o vento? Faltavam-lhe, pois, palavras, ocasião e coragem."

(Flaubert)


não foi sem motivo que ganhei uma ema bovary.

18.5.10

whatever will be will be.


Dr. Bernardo Hazelhof também diz que a vida de todo mundo é como uma longa calçada. Algumas são bem pavimentadas; outras, como a minha, têm rachaduras, cascas de banana e bitucas de cigarros. Sua calçada é como a minha, mas provavelmente sem tantas rachaduras. Espero que um dia nossas calçadas se encontrem. E nós poderemos dividir uma lata de leite condensado.

se todo mundo sambasse.

não sei como lidar com as pessoas, não entendo relacionamentos. eu penso que tudo poderia ser muito mais fácil, mas parece que ninguém quer se entender. mesmo aqueles que são tão iguais e poderiam viver tão bem juntos. eu poderia dizer isso todo o tempo aplicando a situações na minha vida - e em coisas que não são exatamente a minha vida, mas que fazem parte dela de uma forma significativa, como filmes e livros. e eu não estou propondo uma grande reflexão sobre a vida, o universo e tudo mais, mas é que eu realmente me surpreendo com a capacidade que as pessoas têm de complicar tudo e acabar com o dia de alguém de uma forma tão forte que dá a impressão de não se poder superar nunca. e eu digo isso não só por mim, mas por amigos também. e o que eu acho que aprendi é que a gente supera, sim. vivo relembrando pessoas que me marcaram muito na vida e que do nada sumiram. e isso de sumir sem explicação pra você quando você não some dói. eu relembro agora, é triste, mas é bem menor do que quando acontece. me disseram que isso é bom porque você aprende logo e não deixa acontecer nunca mais. não acho isso. acho que sempre existe uma super esperança de encontrarmos pessoas diferentes, legais, que nos entendam e gostem realmente de nos fazer companhia. acho que estamos sempre encontrando essas pessoas e é por isso que dói tanto a cada decepção e dá vontade de parar, se isolar.

mas olha, mumunhas: a vida vale a pena. e não é conversa-de-livrinho-auto-ajuda. eu sei que dói e é forte, e é bom sofrer tudo que se tem pra sofrer quando isso acontece. mas você vai superar. e você vai conhecer novas pessoas e você vai ver como elas são melhores e você de repente vai tropeçar, vai ter pedacinhos do seu coração com pessoas que nem merecem mas vai superar mais uma vez e continuar vivendo. e perceber que é assim mesmo. até a hora de dar certo. e quando essa hora chegar - ah, aí você nem vai mais lembrar de tudo isso.

That's why I can't say enough times, whatever love you can get and give, whatever happiness you can filch or provide, every temporary measure of grace, whatever works.

17.5.10

o refrão.



o refrão tem sido meu.

4.5.10

ob-la-di-ob-la-da

é isso: uma felicidade pura. não importa se você ainda não consegue estudar, se a partir de amanhã não tem mais o bandejão pra almoçar, se tem prova essa semana, se em breve já estará tensa com estudos novamente. é uma felicidade. pura de motivos, pura em sua forma. e talvez seja ainda mais feliz por isso. olha, veja só, você não precisou de uma coisa-pessoa-ação efêmera pra te deixar radiante num momento e abandonada logo depois. olha, tá tudo no lugar. tudo. você estava olhando pro lado errado, só isso, passou. acorda agora. ou melhor, você já acordou. ufa. viu como é legal? viu que você pode não saber nada de latim e sair da prova distribuindo abraços e sorrisos? é assim, não faz mal. o abraço vem de cá, o sorriso vem de lá, a piada nonsense engraçada tá do seu lado, os filmes estão na sua mesa, os livros estão na sua bolsa, o torrone surge de sobremesa, a decisão sai de você.

há os presentes-bem-presentes e há aqueles presentes-não-presentes-mas-ainda-assim-presentes. ninguém lê aqui (quer dizer, uma lê, eu sei), talvez nenhum perceba, mas vejam: obrigada. foi tanta paciência, tanto desabafo - a vontade de poder retribuir é imensa. a terapia funcionou. tá funcionando. mas não me deixem ainda. nunca (afinal, o meu apego parece eterno).

leve. desculpa, kundera, mas agora eu quero uma leveza sustentável em meu ser.

27.4.10

where the wild things are.

finalmente vi "onde vivem os monstros". e realmente me deixou feliz - feliz no sentido de ter gostado bastante do filme, porque eu reagi com muitas lágrimas a tudo que passou na tela, he.

pra quem não sabe: "onde vivem os monstros" é um livrinho infantil ilustrado, escrito em 1963 por maurice sendak. conta a história de um garotinho que apronta e é colocado de castigo em seu quarto. nisso, ele resolve viajar e acaba chegando à terra dos monstros. lá se diverte, capta a benevolência dos monstrinhos, mas sente falta de um lugar "onde as pessoas gostem dele de verdade" e acaba voltando pra casa. é isso. poucas palavras, poucas páginas.

o filme tem, basicamente, a mesma história. só que desenvolve bem mais a confusão do pequeno garotinho vestido de lobo: sem a atenção da irmã, sem ter com quem brincar, sem ser compreendido pela mãe, sem milho de verdade pra comer.

essa adaptação fala sobre amadurecimento, sobre crescer, entender algo do mundo adulto. e, bem, essa transformação não é nada fácil - ainda hoje eu me sinto um pouco perdida - e é daí que surgem os conflitos da trama. mas tudo de uma forma muito delicada, bonita e cof-depressiva-cof.


e, no fim, espera-se que ninguém fale mal dos monstros na hora de voltar pra casa.

23.4.10

das verdades.

"Estar contigo ou não estar contigo é a medida de meu tempo"

(Borges)


mas não deveria ser.

16.4.10

sou uma outra.

e aí de repente, quando o tempo inteiro ela se preparou pra ver filmes por todo o dia e não pensar em vida real: o dvd não passa, o arquivo não abre, e qualquer outra complicação tecnológica acontece (afinal, tecnologia nunca foi o seu forte). e ela pensa nas relações entre as pessoas, como sempre. e acaba ficando triste com o que percebe. como quase sempre.

e de repente ela lembra de uma conversa alegre sobre filmes. alguém diz que um amigo não gostou do final de a igualdade é branca e ela diz que bem, é meio indefinido mas é mais legal assim, e lembra de outro com a mesma atriz, antes do pôr-do-sol, que também não teve um final definido pra quem assistia, mas ah, você não acha que eles ficam juntos? claro que ficam, óbvio. e, embora o filme agora seja do lynch, ela relembra a conversa do almoço e os diálogos mais tocantes do filme aparecem em sua mente. talvez seja o embalo dos roteiros confusos numa sexta à noite. ou talvez a mocinha seja mesmo confusa até a medula e os pensamentos vivam misturados por aí.

mas não é complicado? o universo pode conspirar contra ela, que não acredita em astrologia mas veja o perfil de peixes, nossa, é muito igual, por que logo esse, tão problemático? e eu digo olha, amiga minha, não é isso, é a vida mesmo. e parece que você não sabe lidar com esse grande acontecimento quando ele não se passa na sua cabeça. ou naquele mundinho tão especial que você construiu e onde sempre dá uma passadinha quando tá num ônibus, num metrô, na sala de aula, no seu quarto, nas caminhadas solitárias.

e então ela percebe que sim, não consegue lidar com tudo isso. e percebe que esse algo tão sem nome dentro dela - que parece um grito sufocado, liberado bem aos poucos em lágrimas tímidas quando tenta explicar e dividir com alguém - vai continuar. e ela já avisa meio sem jeito: desculpa se eu chegar chorando e quiser falar e você perceber que é a mesma coisa, eu não quero ser chata repetitiva boba; eu só confio e me acho segura e confortável pra desabafar, não precisa dizer nada, sabe, não precisa, é só ouvir mesmo e me dar um abraço bem forte. vai passar por um momento. assim como talvez passe por agora.

e então essa outra, amiga minha, vai ler o seu livro. aquele que ela pegou por vontade, não por ser obrigada a ler. aquele que a ensinou um "ah, caralho" pra quando a vida chateia.

11.4.10

"aqui no se rinde nadie, carajo!"

depois de caminhar pela paulista (paulista, te amo) e voltar com mil papéis pra casa - sim, eu coleciono postais e adoro pegar jornais e papéis com programações pela rua -, meu ar é outro. e o objetivo agora é mudar, deixar pra lá, esquecer, estudar. ou pelo menos tentar de verdade fazer tudo isso. minha terapia começou. é com amigos. é em casa.

"Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito então é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. E sem despesas."
(Lygia F.)

5.4.10

por sedex 10.

querida vida,

escrevo pra pedir um pouco de facilidade e felicidade. nada de crises, de confusões, de falta de concentração, de estudos difíceis, de falta de tempo, de saudade doída. mais amizade, mais sol laranja-frio com vento, mais abraços.

espero que amanhã de manhã você já tenha recebido essa carta e que tudo esteja bem.

3.4.10

um diário com rousseau.

"[...] havia famílias, mas não havia nações; havia línguas de todo um povo; havia casamentos mas não havia amor. Cada família bastava-se a si mesma e perpetuava-se unicamente através de seu próprio sangue [...]. Não havia nesse ponto nada de suficientemente interessante para desatar a língua, nada que pudesse arrancar com frequência os acentos das paixões ardentes para transformá-las em instituições [...]. Numa palavra, nas regiões amenas, nos terrenos férteis, foi necessário todo o ardor das paixões agradáveis para começar a fazer com que os habitantes falassem: as primeiras línguas, filhas do prazer e não da necessidade, usaram por muito tempo a bandeira de seu pai; seu acento sedutor somente desapareceu com os sentimentos que o haviam originado, quando novas necessidades, introduzidas entre os homens, forçaram cada um a pensar somente em si mesmo e a fechar seu coração dentro de si."

(Rousseau - Ensaio sobre a origem das línguas)

mensagem para você

que senta ao meu lado no avião:

por favor, se você é um desconhecido, não me conte detalhes da sua vida, da sua viagem de férias, não me pergunte coisas demais, não converse demais, não me mostre fotos na sua máquina. eu só quero ler, dormir e olhar pro chão.

grata pela atenção,

jéssica.

31.3.10

sobre vacinas e doces.

é estranho como tudo vai acontecendo de repente e você se dá conta de que diversos sentimentos diferentes passaram pelo seu ser em um só dia. e todos de uma forma tão intensa que os momentos não se ligam, e só agora, no fim do dia, é que passa um filminho na cabeça e as coisas são sentidas de novo.

minha manhã: acordei cedo pra me vacinar. é. e quem me conhece sabe o pânico que eu tenho de agulhas. e a primeira vez em que eu NÃO chorei pra fazer um exame de sangue foi nessas férias, veja só. mas hoje não doeu. tudo bem que teve todo um escândalo inicial e eu me encolhi junto ao meu pai e apertei os olhos; mas não doeu, não senti nada. à mocinha que aplicou a vacina: muito obrigada.

minha tarde: doces e companhia extremamente agradável. um dia eu tentarei dizer tudo que essa pessoa representa pra mim. ou como eu não consigo viver sem ela. ou de como é fácil contar tudo, e rir, e chorar, e se sentir sempre abraçada e próxima. digo tentarei porque acho que não dá pra transformar em palavras, parece simplificar demais uma amizade que dura há anos e permanece forte depois de tempo, distância, mudança. o fato é que hoje foram horas de conversas e risos e crises e torta doce. e não importa o fato da minha amiga me chamar de "monstra" ou "formiga gigante" só por eu comer um pouquinho demais uns docinhos - ela pode. bichara, eu te amo.

minha noite: mais cafés e tortas doces com os meus pais. e nunca um engarrafamento foi tão divertido: ficar no carro presa no trânsito com música e conversas - sem preocupações e horários definidos - foi legal. e a noite ainda trouxe mais algumas surpresinhas em conversas. mas sei lá, não é bom esperar coisas das pessoas, eu tenho me decepcionado muito. enfim.

passagem de volta comprada, coisas pra organizar em breve.

28.3.10

o garoto na esquina.

"Yesterday on the street I passed the 100% girl," I tell someone.
"Yeah?" he says. "Good-looking?"
"Not really."
"Your favorite type, then?"
"I don't know. I can't seem to remember anything about her - the shape of her eyes or the size of her breasts."
"Strange."
"Yeah. Strange."
"So anyhow," he says, already bored, "what did you do? Talk to her? Follow her?"
"Nah. Just passed her on the street."


o conto inteiro:
www.mat.upm.es/~jcm/murakami-perfect.html

27.3.10

home sweet home.

uma semana inteirinha sem aula, santa semana santa. e bate logo a vontade de ir pra casa, respirar aliviada (e não ter que sair pra comprar coisas, arrumar coisas, fazer comida, lidar com dinheiro, pegar transporte público etc). tudo bem que eu gosto daqui - e o número de coisas legais pra se fazer é grande, mas tá chovendo muito, estou doente, não tenho dinheiro e não tenho carro -, mas ir pra casa é, bem, ir pra casa. é ter o meu quarto, os meus pais, os meus filmes, os meus amigos. tá certo que eu preciso parar de me enganar: eu não vou poder sair, tenho zilhões de coisas pra estudar, e o tempo é curto.

mas é feliz mesmo assim.

26.3.10

sobre confusão.

tem uma coisa que eu odeio e que vive em mim: confusão. odeio me sentir confusa. e eu perco o chão, o léxico, a noção das coisas. e não sei o que fazer. enfim, um ser confuso. tenho uma vontade enorme de pensar sobre tudo e encontrar soluções fáceis, rápidas, lógicas - mas isso é o que menos acontece. saber se fico ou se volto, se vou ou não, se quero ou não quero, se leio ou não leio, se falo ou não, se grito ou deixo passar. as coisas podiam ser tão mais fáceis! e talvez sejam, mas eu faço questão de complicar. ou talvez não seja fácil mesmo e o meu comportamento seja completamente normal. ou talvez...

ah, não sei. estou confusa.

25.3.10

preciso de uma capa de chuva. amarela. *

um fato: estou gripada. e o mais irritante é estar gripada em pleno calor rio-quarenta-graus e ver todo mundo bem. mas o outro fato é que são paulo é uma cidade confusa e o meu organismo fica confuso também, ele não consegue entender os trinta e três graus num momento e dezoito no outro. é muito psicodélico. e enfim, fiquei gripada. hoje já estava até bem, em meio aos trinta graus. mas eis que chove. e chove muito, não percebi a preparação pra chuva. quando vi, já havia raios e trovões, semáforos que não funcionavam, ruas alagadas, trânsito caótico. eu até gosto de chuva - mas quando estou em casa, sem precisar sair e tudo mais. na prática, chuva me faz correr pelas ruas com uma mochila pesada.

e hoje, esperando pelo ônibus na paulista, vi a confusão na avenida, os carros parados, a impaciência, os xingamentos, as pessoas que passavam correndo pra todos os lados. o de sempre. mas hoje eu também vi sorrisos. pessoas que sorriam pra mim quando eu simplesmente levantava a sombrinha pra que elas pudessem passar tranquilamente pela calçada; pessoas que chegavam ao meu lado e esperavam a coragem de continuar correndo; pessoas que esperavam e, depois de algum tempo, compravam um guarda-chuva e sorriam: "é, não tem jeito, vou assim mesmo". e todos os sorrisos - e mais uma ligação que fiz pra minha mãe enquanto o ônibus não passava, pra papear - me deixaram mais feliz. seria uma espécie de, hum, descanso na loucura, como disse alguém (seria guimarães rosa?).

chego em casa, pés molhados. e encontro paz no chocolate.

*amarela, claro. dançando e cantando na chuva. e eu fico feliz de compartilhar tal desejo com mais pessoas - ainda mais quando são pessoas muito legais que fazem o tempo passar rapidinho com conversas agradáveis.

24.3.10

sobre cronopiar.

começa que eu faço letras, mas não escrevo - e isso é extremamente surreal entre toda a galere que escreve horrores e lê e entende de tudo e goosnargh. é problema também fazer um journal de lecture pra matéria do francês já que eu entro em pânicos diante de uma folha em branco e fico pensando no que os outros vão achar lendo aquilo que é tão - queria até que fosse - meu. e é pra passar o tempo digitando em momentos de grande tédio.

enfim, foi feito o blog.


*goosnargh: usado no Guia do Mochileiro pra quando se sabe que é necessário dizer algo, mas não se sabe o quê. aqui, usado como sinônimo de blá blá blá e caixa de fósforos.

a terapia.

Um cronópio se forma em Medicina e abre um consultório na rua Santiago del Estero. Logo chega um doente e conta como há coisas que doem e como de noite não dorme e de dia não come.
- Compre um buquê grande de rosas - diz o cronópio.
O doente se retira surpreso, mas compra o buquê e fica bom instantaneamente. Cheio de gratidão corre para o cronópio e além de pagar a consulta, lhe dá de presente, fino testemunho, um belo buquê de rosas. Apenas ele sai, o cronópio cai doente, sente dores por todos os lados, de noite não dorme e de dia não come.

(Cortázar)


e é por me sentir cronópio que faz sentido, e fica.
acho que preciso de terapia.